sábado, 20 de janeiro de 2018

Sobre palhaços e primatas em outro Continente

Como pertencer?

Estudei isso nos ultimos 16 anos da minha vida e ensinei.

Ensinei?

Aprendi?

Aqui na Polonia estou tendo a prova de fogo.

Como pertencer?

O que nos faz pertencer?

Para pertencer precisamos primeiro nos conhecer muito bem, é um grande desafio, as vezes  cansativo, as vezes da preguiça, as vezes você nao gosta muito do que ve em si mesmo.

Nao pertencimento nao é um “privilegio” de expatriados.

A vida toda essa sensação me foi familiar.

Empregos, festas…

Quando comecei a mergulhar no estudo do teatro e especialmente do circo e do palhaço aprendi como me sentir confortavel com isso. Rir disso. A pertencer a mim mesma. A habitar a mim mesma tao bem habitado que isso por si so seria um grande prazer. Ao expor meu ridiculo as pessoas ririam, o riso mostraria identificação, cumplicidade, alivio.

Acredito que palhaço nao mora numa casa. Ele mora numa ponte. A ponte é o castelo dele.

A ponte é tudo aquilo que cria conexão, identificação… Ele cria pontes ao se desnudar, ao se mostrar vulneravel, real… Ridiculo.



Por muitos anos minha ponte foi minha muleta tambem.

Nao sei o que fazer? Digo algo engraçado.
Me sinto deslocada? Faço uma piada autodepreciativa e automaticamente ninguem vai me ver como uma ameaça e se sentirao confortaveis comigo e abertos pra amizade.



No momento em que eu desci do avião minha ponte e minha muleta foram se dissolvendo aos pouquinhos ao descobrir novas formas de ser vulneravel, novos medos. Novos constrangimentos e sensaçao de nao pertencimento.
Tao novos para mim.
Voce sabe, o medo se fantasia de varias formas embora ele seja sempre o mesmo. Só medo. Só ilusão.
Mas a mente “precisa” tentar rotular e entender.
E enquanto eu entendia, nem pontes nem muletas.
Me perguntei ate se eu era engraçada ou se fui engraçada um dia.

Como construir novas pontes num terreno tão desconhecido, incerto?

As conexoes que tenho encontrado aqui sao exclusivamente relacionadas as vulnerabilidades que tenho em comum com outros imigrantes. São novas vulnrabilidades.

Pra todos nos.
Mas nunca estamos sozinhos em nenhuma delas.
Esses sentimentos sao acentuados aqui.
Mas estão presentes sempre, em todos nós.

E o que fazemos?

Descobrimos como conviver com ele, como mascarar, como fugir.

Nos isolamos. Arrumamos desculpas. Nos entretemos com coisas que não nos obriguem a interagir compartilhar ou coexistir. Nos tornamos cada vez mais individualistas na tentativa de deixar as coisas mais faceis.

Distraidamento vamos prosseguindo e sobrevivendo.


Mas, sabe o que falta? O que falta pra todos nós?
Nao importa suas preferências ou nacionalidade?

Entender que nascemos para viver em comunidade.

Compartilhar, associar-se a um bem/objetivo em comum nos fez sobreviver, nos fez evoluir, nos fez existir.
Ainda somos os primatas que precisam uns dos outros.
E no compartilhar e coexistir nos tornamos verdadeiramente humanos.

Eu sou quando somos.

Portanto, nascemos para pertencer, compartilhar, conviver…

É a nossa natureza seja você brasileiro, gringo… Ou palhaço.