segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Migrar é ser um viajante do tempo


Tenho andado melancólica.
Não de um jeito ruim. Bom, ainda que a melancolia seja uma tristeza bonita, ela ainda é uma tristeza. Tenho andado com aquela preguiça interna espiritual e contemplativa, onde é gostosinho ficar mais dentro de si. Gostoso, quieto e um pouco escuro.

Penso sobre a passagem do tempo. Sobre a morte.
É errado pensar sobre a morte?
Fico levemente comovida quando me dou conta de que em algum momento da minha vida começarei a me despedir das pessoas. Pra sempre. Seja lá o que o sempre for, ou o que a eternidade signifique.
Vai chegar uma hora na vida em que vou começar a ver pessoas que conheci morrendo. Bom, não exatamente presenciar, mas vou saber, ouvir...Vai acontecer.

Me assusta. Eu amo e odeio essa sensação;
Ela me faz a vida pesar às vezes, me perguntar o tempo todo se as coisas valem a pena, Se qualquer coisa vale meu tempo.
Porque ele acaba.

Quanto tempo eu tenho?
A gente começa a pensar muito sobre o tempo ao cruzar fronteiras geográficas tão distantes.

O tempo fica tão devagar… O tempo passa tão rápido.

Minha sobrinha fez aniversário e eu não estava lá.
Mas preciso admitir, quando eu estava no Brasil eu não ia a todos os encontros de família, até mesmo Natal eu já perdi e passei sozinha. Por opção.

Não importa. O tempo, quando se está longe,ganha outro significado.

Eu valorizo as relações e os contatos como se eu fosse uma pessoa que sabe que vai morrer.

Porque eu sei.
Não sei quando.

Não se preocupe, pode ser que demore muito.
Mas eu tenho um prazer secreto e quase mórbido em imaginar que posso ter pouco tempo de vida.

Sempre pensei que vendemos nosso tempo.
Somos escravos. Reféns, medianamente livres aos finais de semana.
Livres”?
Quanto pagam pelo seu tempo?
Mas eu preciso” “Eu tenho que” “Mas no futuro” “E se” “Quando eu envelhecer”.
Eu torço para que o futuro nunca chegue. Que só exista o agora.
Não esse futuro onde todos os medos e desgraças me encontram , onde todos os sacrifćicios serão recompensados e então, ah...e Então eu "chegarei lá".
A vida fará sentido.
Amanhã.
Em 20 anos.

O que eu deveria escolher agora sabendo que vou morrer?
Que posso morrer a qualquer momento?

Eu faço isso. Eu coloco esse pensamento na minha cabeça, porque eu já estou morrendo. 

Eu tenho 34 anos.

Ontem eu tinha 10 e mal dormia de empolgação antes de irmos á uma excursão de escola, onde no caminho cantavamos todas as canções da moda e nos entupíamos de salgadinho e imaginávamos nossa vida, nosso futuro cheio de aventuras e sucesso.

Esse dia foi ontem. Foi ontem. Passaram-se anos e eu mal notei.
O pior (ou o melhor) é que ainda sou essa menina.

O que eu faço com isso?

O tempo está passando, os “e se” me bombardeiam o tempo todo mas eu ainda sou essa menina que sonha com um futuro leve, alegre e cheio de aventuras.
Mas existe o tempo com seus passos rápidos. Os “e se” da vida me dizendo como devo fazer minhas escolhas para não morrer sozinha pobre e humilhada.
Mas é como nos ensinam a viver e moldamos nossas escolhas, não é?

Credo, que drama, eu sei.

É que a distância geográfica gera fusos horários emocionais.

Tudo muda, se intensifica, vem à tona.

Eu me pergunto se meus pais estarão vivos amanhã.

Eu tenho medo, toda vez que falo com eles ao telefone eu me pergunto se ainda vou ter a chance de abraça-los de novo, de dormir na cama preparada por eles quando eu fizer uma visita, onde eu vou me permitir ser criança de novo e vou permitir que eles sejam pais de novo e cuidem de mim mesmo que eu não precise.
Eu preciso.
Que cuidem de mim.
E também preciso cuidar deles.

Mas a distância, a distância e o tempo, como uma faca que corta as memórias dividindo-as, catalogando-as e me lembrando de forma dramática, sensacionalista, mas talvez muito sábia e bonita que no fundo realmente não sei se terei outra chance.

Sabe, aqui de longe vejo de fora, e com mais clareza e cores os afetos, todo e qualquer.
Me recordo de gentilezas aleatórias através de estranhos cujo rosto nem me lembro.
Me recordo das pessoas que existem e ainda estão lá, mesmo que atraves de uma mensagem de texto ou áudio, e eu me delicio de saber que elas existem.
Eu me delicio de saber que elas existem.
Pessoas. Toques e cheiros. E lembranças e risos.

Que existe um lugar onde conversas aleatórias entre estranhos são permitidas, toque, abraço, o riso faz parte da cultura… 

Um lugar que guarda minhas memórias.

Quando você está num lugar maravilhoso mas sem sua história impregnada nele, voce pensa:
O que realmente importa?

Depois que me tornei imigrante virei essa pessoa ainda mais emotiva.

 Ciente da morte.
Ciente de que o amor é importante e está presente mesmo nas coisas simples.
A atenção é importante.
Vamos nos ver hoje”?
Como você está se sentindo”?

Essas coisas, são as mais importantes.
E eu agradeço por poder viver assim, é um pouco dolorido mas cada momento é um privilégio.
É um privilégio estar viva e ainda poder fazer escolhas. Poder existir. Poder amar.
Poder mostrar amor.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Jeitinho brasileiro.


Antes de comecar a falar do jeitinho brasileiro, falemos das habilidades natas de todo brasileiro.

 O que já nasce embutido dentro da gente uma vez que você nasça em território brasileiro.

Eu, como brasileira e especialmente sendo paulistana nasci com um curso completo de
 krav maga embutido.

Exemplo:
Ando numa calçada e já observo onde entrar e para onde correr se for necessário,

Estou voltando para casa e começa a ficar escuro, casualmente encaixo as chaves de casa como se fossem um soco inglês e se escuto passos atras de mim e não encontrei saidas penso: Faço assim com meu cotovelo, depois eu chuto...
aha tem uma garrafa ali no chão. 

Sim, se você não é brasileiro provavelmente esta com inveja dessa mistura de lutador marcial nato com 
MacGyver que somos. Repito: Especialmente se você é de São Paulo.

Isso que da crescer vendo ou ouvindo falar sobre assaltos, crimes, ouvindo alguém gritar: Pega ladrão! Ou ser seguida na rua por um (ou mais) homens numa linda manha de sábado numa avenida movimentada e enquanto eles te provocam ninguém faz nada.
E voce so consegue pensar “ Tomara que eles queiram me assaltar e nao fazer algo mais”.

Sim, eu sei. Acho que esse paragrafo escrevi com certo ressentimento,
soa um pouco pesado.
Mas calma, a vida no Brasil (ou em SP não é  isso. E digo mais, a mídia  da uma ajudinha nos alarmando , provocando convencendo a ter medo e dizendo que o mundo é um lugar perigoso e horrível enquanto você janta com a família em frente a TV.

Sim, 
você precisa ser esperto, ligeiro e cuidadoso mas o mundo é bom, a vida é boa, o Paulo é maravilhosa e sempre me senti muito livre na maior parte do tempo.

Mas é 
engraçado como a gente se acostuma com esses hábitos. Enquanto eu fazia todos esses cálculos de como agiria para me proteger ou lutar pela minha vida eu cantarolava uma cancão e pensava no que iria fazer para jantar. 

A gente se habitua.

Mas ajuda, e muito, sentir que temos ferramentas.

Ainda uso minhas ferramentas e sentido aranha 
em qualquer lugar do mundo.

Não adianta me dizer que é seguro, EU decido se é seguro ou não.

Qualquer barulho eu me vir
o rápido

Passos atras de 
mim já calculo como ser mais rápida e encontro qualquer coisa no chão que eu possa usar como arma.

 
 tem um gato, meio tijolo e uma garrafa de Heiniken pela metade?

Eu monto um canivete 
Suiço.

Ferramentas. Meios. Recursos. Jeitos.

Sim, eu sei que brasileiro é famoso pelo “ĵeitinho brasileiro” e que na maioria das vezes isso soa muito mal.

Sou
totalmente contra ser desonesto, preguiçoso e detesto essa mania de querer tirar vantagem dos outros.

Mas isso tem a ver com carater, 
o com nacionalidade.

Se isso afeta alguns (ou muitos brasileiros) 
também acredito que seja uma herança cultural (não de mau caratismo) mas uma herança cultural que vem desde os senhores de engenho e os escravos:

Exploradores e explorados. Opressor e oprimido. Medo de que tomem tudo de 
você então você encontra qualquer meio de se dar bem antes. Revolta em vir de um historico de exploraçao e simplesmente nao ter outras referencias.Crença na escasses. E com certeza crenças em valores errados, crença que o seu valor estará naquilo que você mostra que tem, que possui.

Não estou justificando pois nada justifica. Estou divagando o que pode ser a raiz desse habito terrível.
Mas 
são  divagaçoes. Se eu realmente tivesse a resposta o estaria aqui em casa inventando cancões sobre meus gatos.

Mas aprendi que tem algo de muito bom nesse jeitinho brasileiro.
Eu aprendo todos os dias a abrir portas e caminhos para mim atrav éz da gentileza. 

Qual o problema em conseguir as coisas 
fácil ?

Fácil não significa sem emprenho ou sem trabalho, para mim, fácil siginifica conquistar o que se deseja sem sofrimento desnecessário. Sem esse sacrifio cristao onde a recompensa vira quanto mais eu sofrer e sangrar.

E eu sempre, sempre acreditei n
o sacrifício. Eu adorava usar a frase “ Estou me matando de trabalhar”“Estou me matando de estudar, como se houvesse uma relação  eu e Deus e a cada sofrimento eu dava uma piscadinha pra Ele como quem diz: “E ai, ta vendo?  Quando vai vir a recompensa ?”


Quando mais eu busquei me distrair do medo e sofrimento com coisas como 
vídeo de gatinhos ou meditacãoadivinhem? Pensamento mais claro. Decisões mais inteligentes. E a surpresa em perceber que e possível construir, consquistar coisas com empenho, trabalho e comprometimento, mas sem morrer por dentro.


Me recusar a entrar numa onda de hostilidade e 
agressão que algumas vezes senti aqui na Polônia (que também pode ser herança cultural de nacionalidades que sempre tiveram que lutar para se preservar e se defender, como na Europa) e fazer o que o brasileiro faz de melhor. Rir. Tirar sarro da situaçao. Rir das proprias tragedias e então, na leveza conseguir tomar decisões inteligentes e enxergar com mais clareza.

Admito, ainda estou em processo, as vezes acolho o drama e o ressentimento mas cada vez por periodos mais curtos de tempo.

Vejo cada vez mais valor em sermos toscos. Os memes brasileiros, a internet brasileira, o cachorro brasileiro (como aquele 
vídeo do cachorro dançando feliz) não representam somente coincidências isoladas, e sim um super poder.
Que a gente somente usa com coisas bobas e de maneira desorganizada, mas é realmente um dom poder rir das desgraças, poder ser leve.
Isso pode ter potencia para coisas importantes também!

Pelo menos desconfio. E também estou aprendendo a encontrar potencia nisso.
Mas pode ter algo de poderoso ai. 


No jeitinho brasileiro.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Viajar é morrer

Primeiro porque apesar da saudade minha mae sempre repete: Pelo menos ela esta num lugar melhor XP.
O desconhecido não é só uma miragem ou metáfora. Ele é certo.
E por mais apoio e amor que tenhamos ao nosso redor, a gente nasce e vai morrer sozinho.
E nessas grandes mudanças que a vida traz, a gente é convidado a mudar, e mudar é morrer um pouquinho, não de um jeito triste e dramático. De um jeito bonito, de um jeito que ao morrer a gente conquista a oportunidade de ir sendo melhor. Mas essas pequenas mortes vêm em forma de:
_Insegurança,
_Medo,
_Vergonha
_E claro, alguns (as vezes MUITOS) erros.



Quando a gente sai do país a gente vira um outro tipo de bicho:

Um bicho que acha que precisa se defender o tempo todo, contraditório não, já que aqui a segurança é maior e os índices de violência menores.

Porque boa parte da segurança que você tem e em saber que você é você
Confuso não
Vamos la: No Brasil, A gente cresce vendo sessão da tarde, tendo cafe da tarde MEU DEUS COMO ASSIM NÃO TEM CAFE DA TARDE EM TODOS OS LUGARES DO MUNDO
Somos parceiros em grande parte das memórias, Ainda que você nem seja meu amigo. Cheiro de casa de voEssas coisas dos bibelozinhos, dos tricozinhos, os produtos que comprávamos nos anos 80, a Tubaína,cigarrinho de chocolate, a lagoa Azul passando 387 vezes por ano na Sessão da tarde, a lenda Urbana da kombi Branca com palhaços ladroes de órgãos…Disk MTV, 89 a Radio Rock, as Melhores da Pan, Playcenter, Benzedeiras, Tatuagem de figurinha que vem no chiclete, A sensação esquisita de da ao ouvir a música dramática do Plantão da Globo, copiar as coreografias do E o Tcham, comer pastel na feira, comprar suquinho na feira dentro daqueles plásticos em forma de bichinho… A emoção da final da Copa de 94 mesmo pra quem nao gostava de futebol, O clima de enterro dos 7×1 mesmo pra quem não tava nem ai pra Copa… ter feito ou conhecer alguém que fez permanente no cabelo, pedir a benção, debater o que é melhor arroz por cima do feijão ou feijão por cima do arroz (feijão por cima do arroz, claro), ser obvio como se comportar ao visitar alguém, ou quando alguém morre, faz aniversario, ou ate mesmo na forma de elogiar ou discordar...
Eu sei que nem todos os brasileiros vão se identificar porque estou compartilhando as memórias de uma geração mas, ainda que eu não te conheça, sei que compartilhamos muitas coisas, certo Eu não sabia que o mundo era tao grande. Não grande em tamanho, mas grande em distâncias. Compartilhar as mesmas memorias e referências de humor e gostosconstrói boa parte de quem somos. Ir de encontro a algo tao diferente disso traz: _Aprendizado,
_Cultura,
_oportunidade de escolhermos ser maiores que somos _A oportunidade (e o desafio) de desfazer preconceitos, enfrentar os medos _A beleza de aprender o que nos torna iguais.


Mas, ainda assim, a mudança tao grande de referências faz a gente se sentir como uma criança que tiraram a chupeta, ainda que você não precise da chupeta.
Boa parte do que eu achava que era estavam também nessas memorias e referências. Ao “tirarem” isso de mim, abre-se um grande espaço para o novo, talvez nem para o novo, mas para aquilo que realmente faz parte da minha natureza e é o mais verdadeiro em mim possa vir a tona, existe um luto de todas essas coisas bobas que não me cercam mais. São parte da minha historia, mas não são eu. E então, me peguei sendo defensiva muitas vezes, como se sentisse que uma parte minha estava morrendo e eu não pudesse permitir.
Como se eu precisasse me justificar por tudo, ou provar meu valor, minha importância.
Mesmo quando não ha ataque, mesmo quando não ha luta. A luta é minha comigo, a luta que todos vivenciam quando a vida nos convida a crescer, e ela sempre faz isso o tempo todo e cada vez de uma maneira diferente.
Eu sei que algumas pessoas que estao lendo podem pensar: Caramba gostaria de ter esse aprendizado também e ir morar for a do Brasil. Mas aprendizado a gente não precisa buscar ou pedir, ele vem de qualquer forma, às vezes ele se apresenta na forma de uma perda, de mudança de emprego, de mudança de país.


Mas a gente ta sempre tendo o convite a morrer. E morrer não é ruim, Abre espaço para o novo e esse novo é tudo o que eu mais desejo. Mas não aceitar a morte de quem se foi, não aceitar crescer ou abandonar os velhos vícios mentais muitas vezes autodestrutivos, isso é muito violento, isso é o que mais dói.
Eu juro que eu ia começar esse texto falando sobre musica brasileira e saiu isso.
Então, um salve-cheiro-axe para todas as nossas pequenas mortes, sejam viagens internas ou realmente físicas.