Tenho
andado melancólica.
Não
de um jeito ruim. Bom, ainda que a melancolia seja uma tristeza
bonita, ela ainda é uma tristeza. Tenho andado com aquela preguiça
interna espiritual e contemplativa, onde é gostosinho ficar mais
dentro de si. Gostoso, quieto e um pouco escuro.
Penso
sobre a passagem do tempo. Sobre a morte.
É
errado pensar sobre a morte?
Fico
levemente comovida quando me dou conta de que em algum momento da
minha vida começarei a me despedir das pessoas. Pra sempre. Seja lá
o que o sempre for, ou o que a eternidade signifique.
Vai
chegar uma hora na vida em que vou começar a ver pessoas que conheci
morrendo. Bom, não exatamente presenciar, mas vou saber, ouvir...Vai
acontecer.
Me
assusta. Eu amo e odeio essa sensação;
Ela
me faz a vida pesar às vezes, me perguntar o tempo todo se as coisas
valem a pena, Se qualquer coisa vale meu tempo.
Porque
ele acaba.
Quanto
tempo eu tenho?
A
gente começa a pensar muito sobre o tempo ao cruzar fronteiras
geográficas tão distantes.
O
tempo fica tão devagar… O tempo passa tão rápido.
Minha
sobrinha fez aniversário e eu não estava lá.
Mas
preciso admitir, quando eu estava no Brasil eu não ia a todos os
encontros de família, até mesmo Natal eu já perdi e passei
sozinha. Por opção.
Não
importa. O tempo, quando se está longe,ganha outro significado.
Eu
valorizo as relações e os contatos como se eu fosse uma pessoa que
sabe que vai morrer.
Porque
eu sei.
Não
sei quando.
Não
se preocupe, pode ser que demore muito.
Mas
eu tenho um prazer secreto e quase mórbido em imaginar que posso ter
pouco tempo de vida.
Sempre
pensei que vendemos nosso tempo.
Somos
escravos. Reféns, medianamente livres aos finais de semana.
“Livres”?
Quanto
pagam pelo seu tempo?
“Mas
eu preciso” “Eu tenho que” “Mas no futuro” “E se”
“Quando eu envelhecer”.
Eu
torço para que o futuro nunca chegue. Que só exista o agora.
Não
esse futuro onde todos os medos e desgraças me encontram , onde
todos os sacrifćicios serão recompensados e então, ah...e Então
eu "chegarei lá".
A
vida fará sentido.
Amanhã.
Em
20 anos.
O
que eu deveria escolher agora sabendo que vou morrer?
Que
posso morrer a qualquer momento?
Eu
faço isso. Eu coloco esse pensamento na minha cabeça, porque eu já
estou morrendo.
Eu tenho 34 anos.
Ontem
eu tinha 10 e mal dormia de empolgação antes de irmos á uma
excursão de escola, onde no caminho cantavamos todas as canções da
moda e nos entupíamos de salgadinho e imaginávamos nossa vida,
nosso futuro cheio de aventuras e sucesso.
Esse
dia foi ontem. Foi ontem. Passaram-se anos e eu mal notei.
O
pior (ou o melhor) é que ainda sou essa menina.
O
que eu faço com isso?
O
tempo está passando, os “e se” me bombardeiam o tempo todo mas eu ainda sou essa menina que sonha com um futuro leve, alegre e cheio de
aventuras.
Mas
existe o tempo com seus passos rápidos. Os “e se” da vida me
dizendo como devo fazer minhas escolhas para não morrer sozinha
pobre e humilhada.
Mas é como nos ensinam a viver e moldamos nossas escolhas, não é?
Credo,
que drama, eu sei.
É
que a distância geográfica gera fusos horários emocionais.
Tudo
muda, se intensifica, vem à tona.
Eu
me pergunto se meus pais estarão vivos amanhã.
Eu
tenho medo, toda vez que falo com eles ao telefone eu me pergunto se
ainda vou ter a chance de abraça-los de novo, de dormir na cama
preparada por eles quando eu fizer uma visita, onde eu vou me
permitir ser criança de novo e vou permitir que eles sejam pais de
novo e cuidem de mim mesmo que eu não precise.
Eu
preciso.
Que
cuidem de mim.
E
também preciso cuidar deles.
Mas
a distância, a distância e o tempo, como uma faca que corta as
memórias dividindo-as, catalogando-as e me lembrando de forma
dramática, sensacionalista, mas talvez muito sábia e bonita que no
fundo realmente não sei se terei outra chance.
Sabe,
aqui de longe vejo de fora, e com mais clareza e cores os afetos,
todo e qualquer.
Me
recordo de gentilezas aleatórias através de estranhos cujo rosto
nem me lembro.
Me
recordo das pessoas que existem e ainda estão lá, mesmo que atraves
de uma mensagem de texto ou áudio, e eu me delicio de saber que elas
existem.
Eu
me delicio de saber que elas existem.
Pessoas.
Toques e cheiros. E lembranças e risos.
Que existe um lugar onde conversas aleatórias entre estranhos são
permitidas, toque, abraço, o riso faz parte da cultura…
Um lugar que guarda minhas memórias.
Quando
você está num lugar maravilhoso mas sem sua história impregnada
nele, voce pensa:
O
que realmente importa?
Depois
que me tornei imigrante virei essa pessoa ainda mais emotiva.
Ciente da morte.
Ciente
de que o amor é importante e está presente mesmo nas coisas
simples.
A
atenção é importante.
“Vamos
nos ver hoje”?
“Como
você está se sentindo”?
Essas
coisas, são as mais importantes.
E
eu agradeço por poder viver assim, é um pouco dolorido mas cada
momento é um privilégio.
É
um privilégio estar viva e ainda poder fazer escolhas. Poder
existir. Poder amar.
Poder
mostrar amor.


