segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Coxinhas X Pãezinhos doce


Sonhei que estava perdida e via em algum lugar ao longe uma coxinha isolada. Numa especie de balcão de padaria...Eu conseguia ver de longe, porque coxinhas tem esse poder, e ouvia uma voz em minha mente (Deus, talvez) Sobrou uma. Ela esta esperando por você.

Não lembro o que houve depois disso.

Mesmo morando no Brasil eu nao tinha uma alimentação tipica brasileira então demorei muito pra sentir falta de alguns itens.
Mas quando sinto falta, sei que não é exatamente o sabor ou o ongrediente mas toda a memoria afetiva por tras disso:
Coxinha pra mim carrega um milhão de possibilidades…
Coxinha é quase sempre possível, porque coxinha é tão barata e gostosa!

Não me refiro a coxinhas gourmet ou coxinhas em pseudo padarias, aqueles bistrôs chiques disfarçados de estabelecimentos que vendem pãozinho :(

Mas se você ta todo lascado você sempre pode pelo menos dar uma enganada com uma coxinha. Tem alguns lugares como no Shopping Santa Cruz ondem vendem a coxa-creme. Uma coxa de galinha revestida por uma massa de coxinha.
Dai você tá sem tempo e com pouco dinheiro e simplesmente manda bala numa coxinha de frango e já era.

Essa despretensão eu ainda não encontrei em outros lugares.

Essa coisa do “salgado”, coxinha, quibe, risoles (já percebeu que som lindo é essa palavra), empada… Você sempre tem uma opção fácil, rápida e barata para enganar a fome. Eu acho isso fofo. Hoje, acho que isso diz mais sobre o brasileiro do que eu imaginava.

E sim, disso eu sinto falta.

Despretensão pra mim é uma palavra que define padaria…
Na padaria você sempre pode comprar alguma coisa mesmo que esteja sem grana…

As melhores refeiçoes que fiz foram em padaria, dividindo PF e ainda me sentindo rica. Porque PF é sempre barato (novamente, falo de padarias roots, não dessa frescuraiada-gourmet)
Tem uma padaria próxima a estacão saúde do metro, o ambiente é meio engordurado- o que faz parte do charme- mas o atendimento é excelente! Todos são atenciosos e trabalham com alegria e tem o melhor PF que já comi na vida!
Mas o que mais gosto desse lugar é que embora eu pudesse pedir pra viagem por morar ali perto, eu gostava de comer la, de ficar naquele ambiente onde se reuniam lado a lado executivos de terno, motoboys, e pedreiros com o uniforme e a pele toda suja do trabalho árduo na construção.

Essa cena é linda, e mais uma vez, diz mais sobre o Brasil do que eu conseguia ver antes.
Não diz coisas melhores, só revela a alma de seu povo… Através da comida e dos lugares populares para se comer.

Sempre tem uma padaria aberta antes do dia clarear em quase toda esquina: Com coxinha, café com leite, pão na chapa…

Isso me passa a mensagem:

Possibilidades – Despretensão.

Ainda não conheço muito da Polônia mas por exemplo: São os reis da comida em conserva, fermentada… Lembra do polonês lutador que falei em outro texto?

Eles sabem se armar até quando o assunto é comida, do tipo: Se eu precisar guardar, poupar, esconder para me proteger eu tenho os melhores alimentos para isso. E alimentos ricos em gordura que darão a saciedade necessária para aguentar a batalha, para aguentar a escassez se ela houver.

Isso me passa a mensagem: Lutadores. Preparados.

To achando também que os poloneses são os reis dos biscoitinhos e pãezinhos doce. Tantas variedades, sempre tão cheios de detalhes, de fofura, pra mim são puro amor em forma de pãozinho. Aposto que eles só contratam mamães ou vovós para assa-los ( Por favor não me digam o contrario, quero manter essa ilusão) Isso mostra pra mim, que eles sabem lutar, mas também, e talvez por isso mesmo são especialistas em confortar, em acolher. 

Como é que vou ousar pensar o contrario se em cada esquina tem uma lojinha vendendo pãezinhos doce quente?

Tudo conta a nossa historia, e olha que nem fui fundo só fiquei na coxinha e nos pãezinhos…

Então sei que saudade daquele farelo gordurentinho que fica no dedo depois de comer a coxinha (suspiro), é saudade das referencias...Da própria história onde a sensação de pertencimento é maior.

Mas a gente vai aprendendo a expandir nossas raízes a medida que aprende a expandir o paladar também. Nosso palato também vai se nutrindo de novas memórias...

Espero que essa noite eu sonhe com farofa e caldinho de feijão...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O dia em que Wesley Safadão me salvou e minhas raízes latinas


Comecei a ouvir Wesley Safadão.

Sempre me conforta, vai entender…

Estando tão longe de onde nasci e construi minhas referencias e identidade, nao  é incomum sentir algum tipo de aperto no peito ou vazio de vez em quando.
Eu nao chamo de saudade, eu sempre associo saudade a algo muito melancolico, o que eu sinto  é gratidão pelas minhas origens, e muito mais gratidão por estar onde eu estou e pelo motivo que me trouxe até aqui.
Ate aí nao existe um problema propriamente dito.

Mas as vezes voce se sente meio coisado, muito coisado, e eu, que tenho mania de querer dar uma teoria para tudo e encontrar nomes para tudo o que eu sinto, querendo insistentemente me concertar como se eu fosse uma peça que ja tivesse nascido com defeito de fabricação, não encontro o nome.

E quando a gente não encontra o nome, a razão do nosso infortúnio, a gente encomenda outro problema e empurra voluntariamente a nossa paz pra um pouquinho mais longe.
Onde entra Wesley safadão nisso? 

Não só Wesley safadão, mas furacão 2000, Timbalada...ai Timbalada…
Eu comecei a ouvir, despretensiosamente escolhi uma playlist brasileira no youtube, querendo desafiar meu próprio tédio:

Foi quando o mundo se abriu, um coral de anjos comecou a cantar e eu teria resposta para todos os problemas mundiais se você me perguntasse nesse momento.

Sempre aprendi através da linguagem do palhaco que todos temos necessidade de pertencimento. De sermos vistos. Amados. Pertencer é uma forma de se sentir amado. Não a alguém necessariamente, mas a gente se abriga naquilo que a gente ama, ainda que seja um ideal, uma crença, uma luta.

E eu, que sempre fui meio metida e sempre ouvi musica gringa desde criança começo a me sentir embalada no doce som de : “Requebra requebra requebra assim, pode falar pode rir de mim”….”Sonhei que tava me casando e acordei no desespero” (ouçam é engraçada), “Seu amooooor me pegooou”. E o simples e breve contato com minhas referencias, com minhas origens, me trouxe uma paz muito grande.

Nossa historia, nossas raízes estão mesmo onde a gente não espera.

Quando é que eu ia achar que Wesley Safadão me traria conforto ou sentimento de familiaridade sendo que nunca ouvi antes? 

Porque é tao tipico e peculiar do Brasil gente, esse tipo de musica de letra...Mesmo esses que a gente acha que não representam o Brasil afinal “o Brasil tem muito mais musica de qualidade e bla bla bla” (aquele papo sobre a Anita se apresentar nas Olimpíadas por exemplo)
Mas essa informalidade, essa simplicidade, essa “ fuleragem” diz tanto sobre a gente… E diz coisas boas, e de maneira despretensiosa e informal, mostra algo que somente a gente tem.

Cada vez mais eu percebo que só o Brasil pensa e se comporta desse jeito, enxerga o mundo desse jeito, tem a capacidade de uma leveza e alegria sem tamanho.

Ontem fiz uma aula na academia e tocaram 6 musicas brasileiras. Nunca fiz uma aula no Brasil que tocasse...3 musicas brasileiras que fosse,(exceto zumba) serio, tocou (pasmem): Baila baila comigo… Domino!!!!! (Eu olhava para o lado ansiando por alguem que soubesse a coreografia, que tivesse cansado de ver aquela cafonice nos programas do Gugu), tocou Lepo Lepo… E umas percussões doidas de escola de Samba. Eles apreciam demais a cultura latina e brasileira, enxergam algo que a gente nem sempre vê.
 E que eu estou aprendendo a ver, a reconhecer, a me orgulhar agora.

De repente comecou a tocar Rumba...E o curioso é que senti o mesmo conforto, a mesma familiaridade.

Fora do Brasil me sinto muito mais brasileira, mas sinto algo que nunca senti antes: Me sinto latina.

Nos os latinos americanos temos uma linguagem em comum, temos uma fuleiragem em comum que penso agora, deveriamos compartilhar-celebrar-valorizar mais. Valorizar nossa cultura latina e nos unir mais. 

Eu pelo menos,sempre vi assim: Brasil e o resto do mundo. Mas a America Latina também é minha casa, vejo agora.

Quando me param na rua para me perguntar se sou latina, ou mais precisamente Colombiana (não sei porque) Eu falo com orgulho que sou brasileira, mas também fico feliz por acharem que sou colombiana.

Quando toca salsa na academia eu me sinto orgulhosa, também me sinto representada, como nunca imaginei.

Indo ainda mais longe no raciocínio: Sendo brasileiros, nossas raízes estão espalhadas em todo mundo. Já parou pra pensar nisso? Eu carrego em mim sangue de índio, italiano, espanhol, muito provavelmente e com sorte sangue africano... Isso do que eu sei, mas tem mais mistura com certeza. 

Eu tenho pensado e tenho sentido, somente agora, tão longe de "casa", minha sensação de pertencimento ficou mais fácil de ser alcançada. Lentamente minha "casa" vai se expandindo...

Meu mundo ficou e fica cada vez maior.

domingo, 3 de setembro de 2017

Quando me confundiram com uma mexicana especialista em tacos

_Um taco vegetariano!

Foi tudo o que me arrisquei a pedir.






Sempre tenho receio de comer num lugar 

novo. Me aflige demais gastar dinheiro com

 comida que não vou comer e ver ela indo 

pro lixo.

Mas eu queria muito comer algo diferente

para variar e eu amo comida mexicana: Pra

 mim comida mexicana tem aquele sabor 

 de junk food mas ao mesmo tempo é 

parecido com comida caseira, comida de 

mãe. Tem sustança.

A garçonete que me atendeu era uma loira 

simpatica e esquelética, meu impulso inicial

 foi pensar em oferecer dividir meu taco com a coitadinha mas intui que ser esquelética era

 uma opção que ela ostentava com orgulho enquanto caminhava para la e para ca 

ostentando seus quadris inexistentes vestida como uma dançarina espanhola.

Pois é, era um restaurante mexicano na Polônia. Agora que me toquei que o Uniforme não

 tem nada a ver com México, mas é exótico e realmente chama atenção, então ponto pra eles

de qualquer jeito.

Desde quando sentei no restaurante tive a impressão de estar sendo observada com 

curiosidade.


Pelas garçonetes, pela gerente (acho que era gerente) e por um momento me perguntei se

 tinha algo errado comigo. Claro que meu impulso inicial é SEMPRE ter certeza de que fiz 

algo errado, que estou com a maquiagem borrada ou com o vestido levantado na parte de 

tras enfiado na calcinha – coisas que ja me aconteceram, mas estava tudo ok.

Me perguntei se achavam que eu era mexicana…

Olhei ao redor e só vi poloneses, ou estrangeiros europeus. Todos claros, loiros.

E percebo novamente as garçonetes me observando com interesse e curiosidade.

Claro que tem pessoas morenas como eu aqui na Polonia. Mas a gente sempre reconhece 

um estrangeiro, não importa suas características, a gente sempre sabe.

Eles também. E mesmo que eu não abra a boca denunciando meu sotaque, eles sabem 

que sou latina. E sempre me pergunto como eles sabem, mas não tenho muita certeza se 

vou gostar da resposta.

Esperei ansiosa pelo meu taco e quando ele chegou e dei a primeira mordida…

Uma decepção enorme se apossou de mim.

Achei que era uma piada.

Nunca comi nada tão ruim. Não era somente o sabor, mas a qualidade dos ingredientes, 

tudo tinha gosto de velho.

_Não vou conseguir comer isso – pensei, ofendida. E não sou do tipo que reclama, 

especialmente sobre comida.

Quando coloquei o taco de volta no prato a garçonete veio correndo ate mim. 

Imediatamente.

_Alguma coisa errada?

Olhei ao redor e as outras garçonetes observavam, a gerente também observava.

Eu me senti pressionada porque na verdade, elas estavam se sentindo pressionadas.

Naquele momento percebi que tinham certeza que eu era mexicana.

_Tudo errado! Os mexicanos ficariam ofendidos com isso! Qual o problema de voces que 

não podem fazer um prato tão simples? Como é que voces conseguiram deixar o taco 

fedendo alem de tudo? Hein? Hein?

Eu pensei.


A garçonete me encarava de forma doce e preocupada. E tudo o que consegui dizer foi:

_Esta ótimo! - enquanto eu dava um meio sorriso e meus olhos exclamavam terror. Acho 

que ela percebeu porque fez uma cara estranha.

E então continuei sendo observada O TEMPO TODO.

O taco simplesmente fedia. Era impossivel comer.

Fiquei me perguntando qual a referencia que elas tinham de mexicanos para se importar 

tanto com a minha opinião: Chaves, Frida… Provavelmente El Chapo, nesse caso fazia 

sentido o temor aquelas meninas.

Pedi a conta. Eu e a menina mal conseguiamos nos olhar nos olhos.

Quando vi o papel da conta notei que tinham escrito a mão: Gracias, e fizeram um 

desenho.

Aquilo me comoveu, não sei porque.

Fui embora sentindo um certo peso no coração…


E um vazio na barriga.