quinta-feira, 31 de maio de 2018

Viajar é morrer

Primeiro porque apesar da saudade minha mae sempre repete: Pelo menos ela esta num lugar melhor XP.
O desconhecido não é só uma miragem ou metáfora. Ele é certo.
E por mais apoio e amor que tenhamos ao nosso redor, a gente nasce e vai morrer sozinho.
E nessas grandes mudanças que a vida traz, a gente é convidado a mudar, e mudar é morrer um pouquinho, não de um jeito triste e dramático. De um jeito bonito, de um jeito que ao morrer a gente conquista a oportunidade de ir sendo melhor. Mas essas pequenas mortes vêm em forma de:
_Insegurança,
_Medo,
_Vergonha
_E claro, alguns (as vezes MUITOS) erros.



Quando a gente sai do país a gente vira um outro tipo de bicho:

Um bicho que acha que precisa se defender o tempo todo, contraditório não, já que aqui a segurança é maior e os índices de violência menores.

Porque boa parte da segurança que você tem e em saber que você é você
Confuso não
Vamos la: No Brasil, A gente cresce vendo sessão da tarde, tendo cafe da tarde MEU DEUS COMO ASSIM NÃO TEM CAFE DA TARDE EM TODOS OS LUGARES DO MUNDO
Somos parceiros em grande parte das memórias, Ainda que você nem seja meu amigo. Cheiro de casa de voEssas coisas dos bibelozinhos, dos tricozinhos, os produtos que comprávamos nos anos 80, a Tubaína,cigarrinho de chocolate, a lagoa Azul passando 387 vezes por ano na Sessão da tarde, a lenda Urbana da kombi Branca com palhaços ladroes de órgãos…Disk MTV, 89 a Radio Rock, as Melhores da Pan, Playcenter, Benzedeiras, Tatuagem de figurinha que vem no chiclete, A sensação esquisita de da ao ouvir a música dramática do Plantão da Globo, copiar as coreografias do E o Tcham, comer pastel na feira, comprar suquinho na feira dentro daqueles plásticos em forma de bichinho… A emoção da final da Copa de 94 mesmo pra quem nao gostava de futebol, O clima de enterro dos 7×1 mesmo pra quem não tava nem ai pra Copa… ter feito ou conhecer alguém que fez permanente no cabelo, pedir a benção, debater o que é melhor arroz por cima do feijão ou feijão por cima do arroz (feijão por cima do arroz, claro), ser obvio como se comportar ao visitar alguém, ou quando alguém morre, faz aniversario, ou ate mesmo na forma de elogiar ou discordar...
Eu sei que nem todos os brasileiros vão se identificar porque estou compartilhando as memórias de uma geração mas, ainda que eu não te conheça, sei que compartilhamos muitas coisas, certo Eu não sabia que o mundo era tao grande. Não grande em tamanho, mas grande em distâncias. Compartilhar as mesmas memorias e referências de humor e gostosconstrói boa parte de quem somos. Ir de encontro a algo tao diferente disso traz: _Aprendizado,
_Cultura,
_oportunidade de escolhermos ser maiores que somos _A oportunidade (e o desafio) de desfazer preconceitos, enfrentar os medos _A beleza de aprender o que nos torna iguais.


Mas, ainda assim, a mudança tao grande de referências faz a gente se sentir como uma criança que tiraram a chupeta, ainda que você não precise da chupeta.
Boa parte do que eu achava que era estavam também nessas memorias e referências. Ao “tirarem” isso de mim, abre-se um grande espaço para o novo, talvez nem para o novo, mas para aquilo que realmente faz parte da minha natureza e é o mais verdadeiro em mim possa vir a tona, existe um luto de todas essas coisas bobas que não me cercam mais. São parte da minha historia, mas não são eu. E então, me peguei sendo defensiva muitas vezes, como se sentisse que uma parte minha estava morrendo e eu não pudesse permitir.
Como se eu precisasse me justificar por tudo, ou provar meu valor, minha importância.
Mesmo quando não ha ataque, mesmo quando não ha luta. A luta é minha comigo, a luta que todos vivenciam quando a vida nos convida a crescer, e ela sempre faz isso o tempo todo e cada vez de uma maneira diferente.
Eu sei que algumas pessoas que estao lendo podem pensar: Caramba gostaria de ter esse aprendizado também e ir morar for a do Brasil. Mas aprendizado a gente não precisa buscar ou pedir, ele vem de qualquer forma, às vezes ele se apresenta na forma de uma perda, de mudança de emprego, de mudança de país.


Mas a gente ta sempre tendo o convite a morrer. E morrer não é ruim, Abre espaço para o novo e esse novo é tudo o que eu mais desejo. Mas não aceitar a morte de quem se foi, não aceitar crescer ou abandonar os velhos vícios mentais muitas vezes autodestrutivos, isso é muito violento, isso é o que mais dói.
Eu juro que eu ia começar esse texto falando sobre musica brasileira e saiu isso.
Então, um salve-cheiro-axe para todas as nossas pequenas mortes, sejam viagens internas ou realmente físicas.



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